
As propriedades do azeite são sempre alvo de estudos, que, volta e meia, divulgam alguma boa descoberta
Ciça Vallerio – O Estado de S.Paulo
A cada temporada, surgem notícias sobre os poderes do azeite, especialmente o extravirgem, que é o tipo mais puro e, portanto, mais rico em nutrientes. A lista vem crescendo. Somam-se às consagradas descobertas vários outros benefícios. Em outubro do ano passado, por exemplo, dois estudos mostraram que o consumo do azeite ajuda a emagrecer.
A nutróloga e endocrinologista Valéria Goulart, membro da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), conta que as pesquisas foram realizadas na Universidade Yeshiva, em Nova York, e na Universidade Sapienza Roma, Itália, e publicadas na conceituada revista científica Cell Metabolism. Em suma, constataram que o azeite evita a gula entre as refeições.
“Isso acontece porque o ácido oleico é convertido em oleoletanolamina (OEA), um hormônio derivado da gordura que regula a fome e o peso corporal, prolongando a saciedade e fazendo com que a pessoa tolere mais tempo entre uma refeição e outra”, resume a nutróloga.
Funciona assim: o ácido oleico chega ao intestino delgado e entra nas células que o revestem por meio de um transportador chamado CD36, que se transforma em oleiletanolamida (OEA). Esta substância é transportada para o cérebro, dando a sensação de saciedade. De quebra, diminui os níveis de triglicérides e colesterol.
“Mas não vá enchendo a cara de azeite para emagrecer”, avisa Valéria. “Ele possui a mesma quantidade de calorias que qualquer outro óleo.” Saiba, portanto, que uma colher de sopa de azeite tem 90 calorias.
A nutricionista Daniela Jobst, membro do Centro Brasileiro de Nutrição Funcional, lembra que o azeite é riquíssimo em ácidos graxos Ômega 9. Por isso, seu consumo regular estimula a produção de substâncias anti-inflamatórias, que ajudam a combater diabetes, obesidade e câncer.
“São as chamadas doenças inflamatórias, pois surgem como resposta a uma agressão feita ao organismo por meio de agentes externos, como uma alimentação inadequada e pobre em nutrientes”, explica Daniela. “Estudos mostram que o consumo regular de azeite auxilia no tratamento dessas patologias.”
Como a celulite não deixa de ser um processo inflamatório, resultado da gordura localizada e da má circulação, esse óleo do bem ajudaria também a minimizá-la. Ainda, segundo Daniela, o azeite ativa o metabolismo. Mas cuidado com o exagero. “Recomendo uma colher de sobremesa por refeição para quem está de dieta, e uma de sopa para quem não se preocupa com a balança.”
Mais promessas
Outra notícia que causou frisson foi a que relaciona o consumo de azeite extravirgem à perda das medidas abdominais. Esse estudo foi realizado por cientistas da Espanha e Inglaterra, e publicado na revista Diabetes Care, da Associação Americana de Diabetes. “Chegaram à conclusão de que a ingestão de duas colheres de sopa dessa gordura monoinsaturada ajuda a evitar a formação da famosa barriguinha”, resume a nutróloga Valéria.
Quer mais? Uma pesquisa da Universidade Northwestern, de Chicago, demonstrou que o azeite extravirgem ajuda na prevenção do câncer de mama. Estudiosos constataram que o ácido oleico neutralizou a atividade do gene HER-2 (Human Epidermal Growth Factor Receptor 2), que é uma proteína relacionada à divisão e crescimento da célula normal. Suas propriedades também estimularam a eficácia do medicamento contra câncer de mama, chamado herceptina, ajudando a prolongar a vida de diversas pacientes.
Segundo a nutróloga e endocrinologista Valéria Goulart, o ácido oleico reforça a membrana das células, muda sua composição e contribui para regular os genes. “Quem consome azeite de oliva mais de uma vez ao dia tem 25% menos riscos de desenvolver câncer de mama, também graças às concentrações de vitamina E, polifenóis e vitaminas A, D, K e E”, informa a especialista.
Para a nutróloga, o ideal é ingerir o azeite extravirgem in natura, acrescentando-o à comida ao final do preparo. Pode ser usado em cozimento, desde que no fogo brando e por pouco tempo. Isso porque, quando as gorduras são submetidas a temperaturas muito altas, desidratam-se e perdem qualidade.”
Decifre os tipos
Italiano e consumidor de carteirinha de azeite, Luciano Percussi é autor do livro Azeite – História, Produtores e Receitas (Editora Senac),que já caminha para a terceira edição. “Faltava informação entre os brasileiros”, conta o fundador do Vinheria Percussi, tradicional e premiado restaurante paulistano. É ele quem ensina a decifrar os tipos de azeite, que chegam a confundir na hora da compra.
Para identificar o extravirgem nas prateleiras, que é o mais rico em nutrientes, olhe no rótulo para saber o grau de acidez, que deve ser entre 0,1% e 0,8%. Este tipo corresponde ao “primeiro suco” da extração da azeitona. Depois, vem o azeite virgem, com acidez entre 0,8% e 1,5%, resultado do “suco” da segunda prensagem do bagaço que sobrou da primeira. Portanto, perde-se parte de sua riqueza, mas mantendo-se alguns benefícios em sua composição. Embora Percussi utilize o extravirgem até para cozinhar, o azeite virgem seria uma opção mais barata para uso diário e, principalmente, para ir ao fogo.
Há ainda o azeite de oliva comum ou semifino, que é a denominação genérica para a mistura do refinado com o virgem, o que reduz ainda mais suas propriedades. O seu grau de acidez fica entre 1,5% e 3,3%.
Luciano Percussi observa ainda que as melhores embalagens são as escuras ou as de cerâmica. No entanto, boa parte do que está nas prateleiras é engarrafada em vidros transparentes. “É para mostrar a cor, mas isso não tem nada a ver com a qualidade do produto”, avisa. “O que vale é o sabor.”
Atenção para a conservação. Durante a compra, verifique se os produtos estão em locais longe do calor e da exposição à luz direta. Esses fatores são responsáveis pela deterioração do azeite, especialmente de seus nutrientes. Guarde-o em local fresco e, de preferência, fora da incidência de radiação solar.
Principais ganhos
O azeite aumenta a saciedade, facilita a digestão e estimula o funcionamento do intestino.
Como sua composição é muito parecida à da gordura humana, é bem assimilado pelo organismo e favorece a absorção das vitaminas lipossolúveis (A, D, K e E).
Por conter muita vitamina E, tem forte poder antioxidante, impedindo a formação de radicais livres e atrasando o envelhecimento das células.
Seu alto teor de gorduras monoinsaturadas ajuda a elevar o HDL (colesterol “bom”) e a reduzir o LDL (colesterol “ruim”).
Diminui o risco do aparecimento da artrite reumatoide.
É indicado para diabéticos, pois aumenta a sensibilidade à insulina e diminui a pressão sanguínea.
Favorece a absorção de cálcio.
Reduz riscos de doenças do coração.