Flora desperdiçada

Dois estudos acadêmicos sobre o aproveitamento de medicamentos da flora e da fauna brasileiras demonstram o quanto é desperdiçado o potencial de biodiversidade do País.

O guaraná, planta nativa da Amazônia, largamente utilizado na medicina popular como estimulante, pode também ser empregado no tratamento da fadiga no público feminino, vítima de câncer de mama, por ocasião do tratamento com quimioterapia. O sintoma afeta entre 50% e 90% dessas pacientes.

A conclusão é de um estudo desenvolvido por pesquisadores do Hospital Albert Einstein e da Faculdade de Medicina do ABC, em São Paulo. De outra parte, a planta barbatimão, típica do Cerrado, poderá se tornar importante aliada contra o veneno de cobra surucucu, a maior serpente peçonhenta da América do Sul. A descoberta é de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense, os quais, a partir de um extrato feito da raiz da planta, conseguiram neutralizar os principais efeitos da picada desse animal.

A surucucu é uma das serpentes mais letais do País, porque seu veneno ataca os sistemas cardiovascular, respiratório, urinário e nervoso, provocando inflamação, edema, hemorragia e necrose na região atingida. O tratamento-padrão, feito com soro antiofídico, se torna eficaz apenas contra os efeitos sistêmicos. As consequências nos locais da picada podem resultar em amputações.

Estes são apenas dois exemplos de uma infinidade de comprovações do emprego da fauna e da flora como fontes naturais de matérias-primas para a indústria farmacêutica. O descompasso entre esse manancial e seu pouco aproveitamento gera situações inexplicáveis. Dono da biodiversidade mais elevada do mundo, o Brasil, até agora, só conseguiu patentear um princípio ativo, lançado como anti-inflamatório.

O mercado mundial de fitoterápicos concentra volume de negócios da ordem de US$ 44 bilhões e observa tendência sempre crescente. No Brasil, o volume anual da comercialização desse segmento é estimado entre US$ 350 e US$ 500 milhões. Em pelo menos seis Estados há o fornecimento de oito fitoterápicos à rede credenciada ao Sistema Único de Saúde (SUS). A proposta de abastecimento nacional da saúde pública, embora aprovada em 2001, só começou a deslanchar em 2006 e ainda encontra barreiras competitivas.

O desenvolvimento da indústria de grande porte de fitoterápicos estaria esbarrando em duas dificuldades: a falta de biotérios em condições de fornecer camundongos de qualidade para os testes de laboratório e a burocratização das pesquisas impostas pela legislação contra a biopirataria. Feita para barrar a ação de estrangeiros no território nacional, ela terminou produzindo efeitos contrários, prejudicando, em grande escala, os centros nacionais de pesquisas.

O Brasil poderia se mirar nos paradigmas de prosperidade das indústrias de produtos naturais do Japão, Alemanha e França, estimulando investimentos para a exploração racional do patrimônio natural disponível, embora cada vez mais objeto do interesse de grupos externos. A saúde pública comporta o aproveitamento dessa riqueza ainda em potencial.

Fonte: Diário do Nordeste

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • email
  • Live
  • MySpace
  • TwitThis

Ministério do Desenvolvimento Agrário organiza redes de plantas medicinais e orgânicos

Evento que promove interação de profissionais da área ocorre em Brasília a partir do dia 18 de agosto

Nesta quarta-feira (18/08) e quinta-feira (19/08), acontece em Brasília, DF, o V Encontro da Rede Temática de Ater de Produtos e Mercados Diferenciados. O objetivo desta edição do evento , promovido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), é apresentar um balanço da Rede Temática de Produtos e Mercados Diferenciados (PMD) e constituir duas redes: a de plantas medicinais e fitoterápicos e a de produtos orgânicos.

A apresentação do balanço dos trabalhos realizados nos estados acontecerá a partir das 8h30 do primeiro dia do encontro. Em seguida, estratégias de implantação das novas redes serão apresentadas, além de debates sobre o planejamento da atuação da novidade. A proposta da Rede de Plantas Medicinais e Fitoterápicos é promover a integração de profissionais de diversas áreas, como produtores, agrônomos, farmacêuticos, químicos, médicos, biólogos e pesquisadores.

Já a Rede de Orgânicos visa o desenvolvimento do segmento no país, promovendo a aproximação de diversos componentes da agricultura familiar orgânica, desde pequenos produtores até instituições de extensão rural, de pesquisa, de ensino público e privado, além de certificadoras e órgãos governamentais responsáveis pelo tema.

Arnaldo de Campos, diretor de Geração de Renda e Agregação de Valor da Secretaria de Agricultura Familiar do MDA, afirma que o desafio dessas redes é criar um ambiente de desenvolvimento tecnológico e de melhoria da qualidade dos serviços técnicos para os agricultores familiares e comunidades. “As redes ajudam a planejar e encontrar diferentes atores que podem colaborar entre si, trocar experiências e também trabalhar em conjunto para resolver problemas”.

A Rede Temática de PMD, cujas atribuições serão transferidas para as novas redes de serviços, é responsável pelos temas da sociobiodiversidade, orgânicos, comércio justo e solidário, plantas medicinais e fitoterápicos.

Fonte: Globo Rural

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • email
  • Live
  • MySpace
  • TwitThis

Governo revisará lista de fitoterápicos para o SUS

Especialistas criticam relação de oito remédios a base de plantas sugerida ao SUS, apontando que houve inclusão de laxante que não traz benefício e ausência de produtos com ação comprovada contra a depressão; ministério diz que críticas são pontuais

Relação de fitoterápicos será revisada a cada dois anos

O governo federal promete revisar e ampliar a lista de fitoterápicos recomendados para o Sistema Único de Saúde (SUS), em meio a críticas de que parte do rol de oito plantas já incluídas não traz benefícios e não valoriza a flora nacional. Além disso, pesquisadores apontam a falta de fitoterápicos de ação comprovada contra depressão e ansiedade, que não trazem o risco de dependência – como ocorre com as drogas tradicionais.

Segundo o diretor de assistência farmacêutica do Ministério da Saúde, José Miguel do Nascimento Júnior, uma comissão vai preparar uma relação nacional de medicamentos fitoterápicos essenciais, que ampliará o total ofertado no sistema público e poderá revisar o rol atual. A lista havia sido alterada pela pasta de dois para oito produtos no fim do ano passado.

“A comissão vai estudar e é óbvio que, se entender que são necessárias adequações, isso vai ser corrigido. Mas todas as plantas que estão lá têm uso, eficácia e segurança comprovados”, afirmou ao Estado o diretor, que diz que as críticas são pontuais.

Para o farmacêutico Luis Marques, vice-presidente da Federação Brasileira das Associações para o Estudo das Plantas Medicinais (Febraplame), no entanto, a seleção das plantas foi feita de maneira “irresponsável”. Ele questiona, por exemplo, a inclusão da cáscara sagrada, planta importada dos EUA, indicada para constipação leve. A planta é um laxante, irritante intestinal, que pode causar dependência e mascarar outros problemas no órgão. “Do ponto de vista terapêutico, é contraindicado”, afirma.

Roberto Boorhem, presidente da Associação Brasileira de Fitoterápicos (Abfito), diz que a constipação tem de ser corrigida com alimentação rica em fibras. Para ele, o fato de o governo ter incluído fitoterápicos no SUS representa um avanço, mas os critérios usados na escolha dos produtos são questionáveis.

A Abfito destaca que não foram contemplados no SUS fitoterápicos de ação antidepressiva comprovada e que não causam dependência, como o ipérico (ou erva-de-são-joão), usado em remédios existentes no mercado, além de outras espécies como a macela, a passiflora e a melissa, base de produtos contra ansiedade e insônia também disponíveis nas farmácias.

No caso da isoflavona, uma das oito incluídas na lista do SUS, não há fornecedores do extrato no País, apesar de o Brasil ser o maior produtor de soja do mundo. O produto é todo importado de Israel, segundo Marques. A alcachofra, apesar de cultivada no Brasil, não é uma espécie nativa. E a aroeira, indicada para problemas ginecológicos, favoreceu um único produto existente no mercado. “Não combina com uma política pública”, diz o pesquisador.

Segundo Marques, há problemas também na escolha das 71 espécies da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus), que serve como referência para investimentos na pesquisa de plantas que poderão, eventualmente, ser incorporadas à rede pública (como já foi feito com as oito atuais). “Ninguém sabe como essa lista foi feita, qual foi o critério utilizado, se foi científico, se foi político”, diz o pesquisador.

A relação, segundo ele, mistura plantas estrangeiras e brasileiras, espécies já comerciais com outras pouco conhecidas ou até não identificadas. Um nome que chama a atenção é o da Jatropha gossypiifolia, uma planta tóxica usada para produção de biodiesel, sem aplicação médica conhecida. “É muito importante que tenhamos uma lista. Mas é preciso ter critérios.”

Nascimento Júnior, do ministério, rebate as críticas. Diz que houve ampla discussão com a sociedade, incluindo universidades e secretarias de Saúde. “Há duas formas de fazer as coisas: uma é esperar que tudo seja resolvido e em um tempo muito além das metas. A outra é fazer”, afirmou. “Não fizemos nada a portas fechadas”, ressaltou. “Agora poderemos ter uma relação definitiva, mas que depois também terá de ser revisada a cada dois anos, como já ocorre com a relação de medicamentos sintéticos. Isso é normal.”

Fonte: Estadão

Compartilhe:
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • email
  • Live
  • MySpace
  • TwitThis
Página 1 de 41234

 

Rua Rodrigo Vieira, 412 Chcara Klabin - Delivery (11) 5084 9697